Para além doutro oceano...
| Num sentimento de febre de ser para além doutro oceano |
| Houve posições dum viver mais claro e mais límpido |
| E aparências duma cidade de seres |
| Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e nudez |
| Fui pórtico dessa visão írrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter |
| A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro |
| Todos viviam na vida dos restantes |
| E a maneira de sentir estava no modo de se viver |
| Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho |
| A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser |
| E houve pasmos de toda a realidade ser só isto |
| Mas a vida era a vida e só era a vida |
| O meu pensamento muitas vezes trabalha silenciosamente |
| Com a mesma doçura duma máquina untada que se move sem fazer barulho |
| Sinto-me bem quando ela assim vai e ponho-me imóvel |
| Para não desmanchar o equilíbrio que me faz tê-lo desse modo |
| Pressinto que é nesses momentos que o meu pensamento é claro |
| Mas eu não o oiço e silencioso ele trabalha sempre de mansinho |
| Como uma máquina untada movida por uma correia |
| E não posso ouvir senão o deslizar sereno das peças que trabalham |
| Eu lembro-me às vezes de que todas as outras pessoas devem sentir isto como eu |
| Mas dizem que lhes dói a cabeça ou sentem tonturas |
| Esta lembrança veio-me como me podia vir outra qualquer |
| Como por exemplo a de que eles não sentem esse deslizar |
| E não pensam em que o não sentem |
| Neste salão antigo em que as panóplias de armas cinzentas |
| São a forma dum arcaboiço em que há sinais doutras eras |
| Passeio o meu olhar materializado e destaco de escondido nas armaduras |
| Aquele segredo da alma que é a causa de eu viver |
| Se fito na panóplia o olhar mortificado em que há desejos de não ver |
| Toda a estrutura férrea desse arcaboiço que eu pressinto não sei por quê |
| Se apossa do meu senti-la como um clarão de lucidez |
| Há som no serem iguais dois elmos que me escutam |
| A sombra das lanças de ser nítida marca a indecisão das palavras |
| Dísticos de incerteza bailam incessantemente sobre mim |
| Oiço já as coroações de heróis que hão-de celebrar-me |
| E sobre este vício de sentir encontro-me nos mesmos espasmos |
| Da mesma poeira cinzenta das armas em que há sinais doutras eras |
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